quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Biografia de Guido Lang


Guido Lang nasceu em Teutônia/RS, em 18 de junho de 1958, filho de Annilda Strate Lang (in memorium) e Lothário Lang (in memorium). Formou-se em Estudos Sociais e História pela UNISINOS e em pós-graduação em Metodologia de Ensino de 1°Grau pela FEEVALE. Lançou os livros "Jacob Lang - A História de um imigrante e pioneiro" (1992), "Colônia Teutônia: história e crônica (1858-1908)" (1995), "Reminiscências da Memória Comunitária de Campo Bom (Coletânea de Textos)" (1997), "Histórias do Cotidiano de Campo Bom (Coletânea de Textos)" (1998), "Reminiscências da Memória Colonial - Teutônia/RS (Coletânea de Textos)" (1999), "Destinos Inseparáveis (Narrativa Histórica)" (1999), "Contos do Cotidiano Colonial (Coletânea de Textos)" (2000) e "Sombras do Passado" (2005).
As suas atividades literárias completam-se com um vasto número de artigos publicados em jornais e revistas.
Ele preocupa-se em registrar fatos curiosos do cotidiano, as suas vivências e a história das comunidades pelo qual passou.
Não visa obter lucros com as suas atividades literárias; escreve pelo prazer de escrever e para eternizar inúmeros acontecimentos do presente (com razão de não deixá-los perder-se nas névoas do tempo e de fornecer subsídios as gerações vindouras para a compreensão da época atual).
Calcula-se que tenha escrito mais de 10 mil páginas (as Bíblias, em geral, possuem cerca de 1300 páginas) visto que possui mais de 30 obras literárias ainda não publicadas.

OBS.: http://refugiodafoca.blogspot.com.br/2011/10/resgate-da-historia.html

A pérola divina


Deus, na sua infinita bondade e grandeza, resolveu lançar o desafio! Tinha criado sua excepcional obra: o Homem. Ele, inovador e meticuloso, quis tirar a prova. Procurou (os humanos sendo animais pensantes) dar uma pérola a cada qual (membro da espécie). Queria avaliar/testar a astúcia e inteligência das pessoas! Averiguar os cuidados e a eficiência! Inteirar-se dos comportamentos e valorização! Conhecer a multiplicação ou subtração!
As pessoas, quaisquer umas, receberiam o idêntico brinde. Ninguém poderia queixar-se duma eventual discriminação ou má sorte. Nada de choradeiras e lamúrias (pelos cantos e recantos)! Comentários impróprios! A dádiva começaria nos primeiros instantes da concepção e estender-se-ia até o desfecho da existência. Absteve-se de interrogar, aos competidores, de querer participar ou não do jogo. Todos, sem nenhuma exceção, precisariam defrontar-se com a sina. Procurou, ao longo dos séculos, “assistir, de camarote, o desfecho do comportamento da espécie”.
Observou cenas imaginárias, outras impensadas no palco da vida. Aparecia cada qual, nem em profecia ou sonho, poderia ser vislumbrado. Alguns, nas primeiras horas/momentos, desperdiçaram a pérola! Outros, por algum infortúnio/percalço, viram-se privados! Uns, no tempo, foram acrescentando beleza e qualidade ao presente! Muitíssimos, mesmo de uso efêmero, pareciam satisfeitos (com o tempo dado)! Outros mais, em décadas de guarda, fizeram uso sublime. Tentaram, de todos as formas e meios, acrescentar e prolongar os préstimos. A jornada, apesar dos bons e múltiplos anos, pareceu-lhes efêmera. Lamentaram, no momento derradeiro, a partida (sem retorno)! Cada qual, a sua maneira, soube abreviar ou prolongar a cortesia!
A pérola, na prática, relacionava-se ao número de dias/tempo vivenciados sobre a Terra. Muitos abreviaram-nos com as correrias, criminalidades, drogadição, gulas, loucuras, velocidades, vícios... Poucos, com parcimônia e sabedoria, conseguiram acrescentar/multiplicar tempo. Vivenciaram longa jornada (em função da modéstia e racionalidade). Estes, o Deus Criador, considerou esbeltos e nobres! Coube, a cada qual, a oportunidade de abreviar ou prolongar o seu número. A esperteza e habilidade encontra-se nos cuidados! A imprudência abrevia e a prudência multiplica!
Sábio é aquele que consegue longa vida! Viva o prazer de cada dia (como fosse o último). Cuide e enobrece muitíssimo esse patrimônio! Agradeça a Deus, a todo instante (através dos atos), por ter sido um dos privilegiados.

Guido Lang
Livro “Histórias das Colônias”
(Literatura Colonial Teuto-brasileira)

Crédito da imagem: http://seasecretsblog.wordpress.com/

O segredo do presente


Um morador, próximo a banhados, matos e roças, conheceu algumas rotineiras visitas. Estas, na ausência de maiores inimigos naturais, cedo tornaram-se uma praga. Os ratos, na primeira oportunidade, invadiram instalações e delas fizeram o espaço próprio à vivência. Os cheiros de urina tornaram-se um impróprio e sem falar na indecência das espalhadas fezes.
O colonial, para safar-se da inconveniência, procurou valer-se da astúcia e esperteza. Ele, como criador de animais domésticos, procurou espalhar algum aparente e inocente mimo. Este, durante sucessivos dias, administrou algum farelo de milho. O produto via-se espalhado nalguma mesa. O administrador, a cada dia, apreciava o sumiço do alimento. O fato acontecia nas caladas da noite e algumas fezes denunciavam a presença de roedores.
Os ratos, nessa altura com sólidas comunidades constituídas, entraram numa acirrada polêmica. Uns membros, muito jovens e imaturos, cedo falaram numa bondade humana. O dono, nos relatos das crueldades humanas, deveria ser uma exceção à regra (dos homens, na sabedoria dos antigos, serem muito interesseiros e maus). O criador dificilmente esquecia-se de distribuir o já tradicional mimo.
Os comentários, pelos membros mais idosos, falavam e narravam histórias chocantes de caçadas implacáveis (movidos contra a espécie). Entendiam-os, os ditos racionais, como uma espécie imprópria e maldosa. A conversa divergente, diante da descrença de muitos, arrastou-se por uns bons dias e semanas.
O proprietário, numa altura, acrescentou uns poucos grãos diversos ao farelo. Procurou manter a discrição e economia do produto. Alguns falaram em tratar-se duma sobremesa e disputavam a mordidas as dádivas. Elas, no primeiro momento, reforçaram as qualidades e virtudes humanas. O doador alimentaria um amor e paixão por animais exóticos.
O curioso abateu-se depois de algumas horas. Uns consumidores, “dessas bênçãos”, passaram a sentir terríveis dores estomagais. O interior parecia dilacerar-se. Eles, junto aos próximos da espécie, imploravam por água. Os adoentados, de forma desesperada e desnorteada, saiam dos buracos e esconderijos. Estes, como “zumbis ambulantes”, tinham consumido alguma inconveniência/veneno desses grãos. Umas poucas migalhas bastavam para fazer o maior estrago e “mostrarem as facetas da morte”.
Uns anciões, membros sobreviventes de outros genocídios e hecatombes, reforçaram seus conselhos. Estes, em linhas gerais, falaram da velha sina: “- Não se pode confiar nesses humanos! Dessa praga nenhuma caridade pode ser aceita! Todos, sem nenhuma exceção, fazem nada sem segundas intenções. Quaisquer mimos trazem os germes da morte. Estes, em cada encruzilhada, costumam montar alguma ratoeira”.
Uns, como prudentes da espécie, procuravam ouvir e seguir as recomendações. Outros sabichões, como tem sido comum em todas as comunidades, acharam-se muito espertos e inteligentes. Eles deram a mínima aos alertas e falas. Estes, nalgum momento, parecem “procurar para entrar nalguma fria”.
O indivíduo, com certos inimigos, não dá para cultivar amizades e muito menos receber presentes. Os interesses e ganhos movem as atitudes e pensamentos. Certas inconveniências não dá para reprimir e muito menos erradicar. Ofertas fáceis escondem interesses escusos. A bondade e caridade alheia, com prejuízos monetários, revela-se uma excepcional falácia.

Guido Lang
“Singelas Histórias do Cotidiano Colonial”

Crédito da imagem: http://umaformadepensamento.blogspot.com.br/2010/09/canto-escuro.html

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O jejum do burro



A tradição oral narra a história e ousadia de certo colonial. O fato teria ocorrido nos primórdios da colonização da Colônia Teutônia (1874). As distâncias e florestas, para os “colonos jogados em meio ao mato” e o descaso das autoridades constituídas, mantinham-se um dilema de superação. As necessidades básicas, para escoar a produção e aquisição dos artigos de primeira necessidade, ostentavam-se uma dificuldade ímpar. As estradas, no interior da Floresta Pluvial Subtropical, não passavam de picadas/trilhas (entre a cerrada vegetação nativa).
Os animais de montaria, como cavalos e mulas, mantinham uma importância vital. Estes, no mercado, valiam uma fortuna (em meio à carência monetária dos pioneiros). As famílias, recém migradas/instaladas nos lotes (a partir da Colônia Alemã de São Leopoldo) e imigradas da Europa, mantinham dificuldades de locomoção e aquisição de alguma montaria. Os potreiros, como áreas cercadas com pedras grês, encontravam-se em progressiva edificação e expansão (diante da inexistência dos arames farpados). O trabalho braçal era básico e a necessidade primordial era conseguir animais (para montaria e alguma tração animal) como auxílio à produção rural.
Um certo camarada colonial, na sua excepcional ingenuidade, queria ensinar um modo vivencial novo ao seu burro. Este, aos poucos, conheceria a abstinência/carência alimentar. O dono queria ensiná-lo a desaprender a comer. A metodologia consistiria em paulatinamente ir reduzindo a quantidade do trato. O bicho, a cada dia, recebia um volume menor de alimento (até ficar zerado). Passaram-se uns bons dias e a prática, em meio a uma tremenda estiagem, tomara vulto. O bicho, meio raquítico, parecia responder bem as intenções e pretensões. Este, a um bom tempo desconhecendo qualquer cereal ou tubérculo, arrastou-se até chegar o dia do completo jejum. O infeliz, não tendo outra opção, obrigou-se a aceitar o dilema. A surpresa, no entanto, adveio numa certa manhã. O dono encontrou-o estirado morto por inanição.
O criador aprendeu outra dura lição de vida. Certas realidades são uma coisa na teoria e bem outra situação na prática. As leis da física ostentam-se difíceis/impossíveis de serem trapaceadas. Os animais, na agressividade ou burrice dos proprietários, pagam os maiores ônus (da falta de informação e instrução). As experiências empíricas ostentam-se uma realidade comum no meio colonial. Algumas dificuldades e necessidades, por falta de referências ou tecnologias, exigem ensaios e improvisações (como paliativos) para encontrar soluções.
O indivíduo que judia dos animais ostenta espírito impróprio. Certas conversas e histórias, mesmo absurdas ou mentirosas, possuem seu fundo de verdade. O cidadão precisa aprender com a experiência alheia com razão de não cair nos idênticos equívocos. A estupidez e irracionalidade humana tão cedo não terão limites. Certas realidades, por sua anomalia, parecem assemelharem a duas.

Guido Lang
“Singelas Histórias do Cotidiano das Colônias”

Crédito da imagem: globomidia.com.br

Troca de posição



Um certo casal, morador das “grotas”, constituiu sua família. O sonho de qualquer homem e mulher, unidos em matrimônio, consiste em ter filhos. Estes significam a continuação e perpetuação familiar. Alguma companhia e segurança maior diante das dificuldades e infortúnios da velhice. Auxílio ao maçante e oneroso trabalho colonial. Aos rebentos revelam-se os objetivos maiores duma existência.
Os conjugues, depois de uns anos de convivência em meio ao manejo da terra, resolveram ter os primeiros herdeiros. A preocupação inicial era angariar uma estabilidade econômica-financeira básica “às encomendas da cegonha”. Rebentos significam volumosos dispêndios monetários e estes inicialmente precisam ser ganhos como alguma reserva. A família, “num primeiro momento da pegada”, obteve duas meninas. Estas nasceram esbeltas, robustas e saudáveis. Os pais preocuparam-se com a perfeição física. O sexo, naquele momento, era questão de segundo plano. Os genitores rezaram e pediram a bênção divina, na proporção da gravidez, pela nascença perfeita e sã dos “bênditos frutos do ventre”.
O casal, com a família em desenvolvimento, sonhava com algum varão. O sobrenome familiar deveria perpetuar-se no seio comunitário. Este, a umas boas décadas, mantinha-se conceituado e inserido naquele meio colonial. O pai e a mãe, numa despreocupação e ingenuidade rural, desconheciam maiores mistérios sobre a definição dos sexos. Eles, como nas ocasiões anteriores, apostariam na casualidade/sorte para gerar algum moço/varão. As duas chances iniciais tinham sido desperdiçadas. A solução consistiria em nova aposta e reforços através de pedidos e rezas ao Todo Poderoso.
O ancião (pai da mãe/sogro), num final de semana, achegou-se para rotineira e tradicional visita. Ele passeou para costumeira convivência e conversa familiar. Os momentos envolviam os assuntos e temas mais variados. A conversação descontraída ia e vinha. O assunto, numa altura, enveredou na abordagem das pretensões de algum varão. O senhor, com os seus oitenta anos nas costas, falou duma artimanha. Este, numa existência inteira, tivera uma “penca de filhos” (entre homens e mulheres). Ele, como homem das colônias, criara milhares de animais (entre aves, bovinos e suínos). O idoso conhecia inúmeros enigmas e segredos da natureza (em função da contínua convivência no meio rural).
O sogrão, em determinado momento (em particular), chamou o genro para “uma conversa ao pé de ouvido”. Este, na sua humildade e simplicidade colonial, externou: “- Estimado familiar! Precisas, na hora da concepção, trocar de posição na relação sexual. A esposa/parceira não pode ficar continuamente por baixo! Ela precisa ficar por cima e tu por baixo! O sexo incorre em mudanças nas posições!” O maridão, junto aos comentários com a parceira, pensou e repensou as costumeiras brincadeiras e relações amorosas.
O receituário/recomendação, nas próximas intimidades, foram seguidas a risca. O casal procurou inovar e fugir da rotina. A surpresa, por algumas mera casualidade ou influência, funcionou a contento. Os nove meses de ansiosa espera trouxeram a boa nova do varão. O plano funcionara a contento na procriação familiar. A família tinha colocado a salvo o orgulho do sobrenome. A dúvida persiste da real eficiência no método ou mera casualidade da natureza. O fato, na real, tornou-se outra lorota colonial e casais redimensionaram posições.
A natureza esconde mistérios insolúveis a pequinês da mente humana. O indivíduo nunca pode subestimar a experiência e a sabedoria do pacato cidadão. Os conhecimentos científicos vêem-se formulados e reformulados na proporção das hipóteses e teorias. As verdades, do momento, não passam de certezas relativas. Singelos detalhes, no final das contas, fazem imensas diferenças.

Guido Lang
“Singelas Histórias do Cotidiano Colonial”

Crédito da imagem: www.giropelopiaui.com.br

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Segredos do instinto selvagem


          Um morador, muito caprichoso e zeloso como micro-empresário colonial, continuou sua improvisada profissão de apicultor. O trabalho, junto as demais atividades, consistiu no estudo e manejo das abelhas. A produção de mel, como complemento econômico-financeiro, revelava-se uma atividade suplementar as criações e plantações.
Este, sem maiores cursos e leituras, foi observando criteriosamente os comportamentos/hábitos dos insetos. Uma descoberta básica, para o êxito da empleitada, consistia na intensa insolação (nos locais da instalação das colmeias). O maior  número de horas possíveis de sol durante os dias  e, de preferência, os primeiros raios matinais. A extrema sensibilidade, dos velhos habitantes da Terra, expressa uma nobre lição de vida aos humanos. A necessidade, de quaisquer seres, de apanhar os primeiros raios da estrela Sol (como vitamina ao corpo). Esta precisa ser uma prática e preocupação primordial das pessoas idosas (predispostas a angariar alguma sobrevida).
A segunda observação relacionou-se as caixas iscas. Elas, pela propriedade, viam-se espalhadas para abrigar/apanhar os enxames. Estas, colocadas sobre postes gravados no chão, viam-se instaladas como chamariscos. O apicultor estabeleceu algumas em áreas abertas e outras nos lugares fechados. As expostas, de forma geral, desinteressavam aos enxames. Os insetos, de forma categórica (com a exposição), rejeitavam o convite e a oferta. As instalações escamoteadas  no interior dos brejos, macegas e matos, mostrava-se um prato cheio. Elas, na primeira oportunidade (com o mimos de cera no interior), faziam-os espaços próprios às moradias. Um hábito consistia na discrição e pacata vida. Os insetos queriam tranquilidade para produzir e trabalhar. Um contraste  marcante, comparado aos desígnios humanos, de precisar mostrar e ostentar.
Outro segredo consistia em inserir as colmeias no habitat próprio da espécie. As abelhas, tendo um instinto selvagens, precisam dos ambientes naturais. Elas conhecem seus inimigos e os meios de proteção contra estes. Os fatores favoráveis leva ao êxito das colmeias e a sobrevivência da espécie. Elas, em pouca semanas, mantinham-se sólidas comunidades. A produção melífera ocorria na proporção das florações. O produtor, com a companhia maciça das comunidades, via  multiplicado sua produção rural (complementar). Uma preocupação básica dos insetos, como lição, consiste em não infringir seus desígnios naturais.
A esperteza e sabedoria humana consistia na atenta observação. Os segredos, de quaisquer negócios, acham-se embutidos na própria realidade. Os dados e os segredos encontram-se escritos em quaisquer meios. O cidadão precisa unicamente ter o conhecimento e a paciência para fazer as devidas leituras. Os coloniais adoram desvendar os enigmas e segredos da natureza. O caminho do êxito e progresso, com acirrado espírito de cientista empírico, soma-se a dedicação e trabalho.
Cada espécie com as discrições e os próprios do seu habitat. A escola da vida é o melhor educandário para decifrar os mistérios dos empreendimentos e negócios. Extrair ensinamentos e sabedorias dos tropeços alheios ostenta-se princípio dos astutos e espertos.
                                                                         
Guido Lang
“Singelas Histórias do Cotidiano das Colônias”

Crédito da imagem: http://quadrinhosantigos.blogspot.com.br/2011/04/extincao-das-abelhas-e-o-fim-da.html

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Um pedido amoroso


Singelas experiências e vivências ocorrem no cotidiano das localidades e propriedades. Os acontecimentos e fatos, por faltas de registros, sucedem-se como nunca tivessem transcorridos. Os autores, como tradição oral, guardam-os na memória e, com seus perecimentos, enterrem-os nas tumbas (juntos aos cemitérios). Cada vida, na prática, descreve algum excepcional livro. O curioso: pouquíssimos se dão a tarefa de redigir suas histórias e memórias (como legado à descendência).
Um certo menino, na idade escolar/pré-adolescência, enamorou-se por certa colega/vizinha. Esta, determinada e esperta nas resoluções, salientava-se no conjunto das meninas. O guri, numa certa ocasião (no recreio), externou sua admiração e desejo de futuro namoro. Aquele despertar sucessivo dos instintos másculos na direção, de nalgum dia, constituir descendência e família. A fala, a grosso modo, consistiu: “- Oh bonita e elegante amiga e colega! Quero, nalgum dia, casar e viver contigo! Constituir uma família!”
A menina estática e surpresa, repleta de fantasias e sonhos, externou os sinceros desejos do coração (diante do inesperado pedido fantasiado de brincadeira). Esta,  de modo curto e grosso, respondeu seus reais sentimentos: “- Caso com qualquer outro e menos contigo! O teu tipo não faz meu gênero! Pode tirar o cavalinho da chuva!” O enamorado, nos anos subsequentes e com outras iniciativas, sofreu muito diante da negativa e rejeição. Outro moço, bem falante e galanteador, caiu nas suas graças e conduziu-a ao altar. As dificuldades econômicas-financeiras do casal, ao longo dos anos, abateram-se na família.
O camarada pedinte, diante da dura realidade do desprezo, concentrou os conhecimentos e energias. Este angariou o firme propósito de vencer na vida. Os esforços foram direcionados ao estudo e trabalho. A esperteza maior revelou-se na administração financeira e eficiência nos negócios. O tino econômico mantinha um dom. A adversidade e negação contribuiu para o aprimorar das vocações. O rapaz, tendo nesta altura sua família, tornou-se abonado e conceituado.
A menina,  agora  mãe e vizinha,  deparava-se continuamente com as carências e os percalços. Via porém a cada dia o progresso e sucesso alheio (do ex-pretendente). A escolha, na parceria, fizera fundamental diferença na dignidade e qualidade de vida. Esta, em muitos momentos, imaginou-se naquela abastança e bonança,  porém preferiu viver nas dificuldades e problemas (do que conviver com alguém sem amor). O indivíduo, antes de quaisquer intimidades, precisa se agradar e gostar da parceria, caso contrário, quaisquer relacionamentos encontram-se fadados ao insucesso.
Certas decisões e escolhas, em meio as muitas resoluções da vida, fazem excepcionais diferenças. Uns, “mesmo podendo estar  pintados de ouro”, não são da nossa afinidade e agrado. O casamento, para tomar vulto, precisa do consentimento de ambas as partes. O indivíduo, ao meio aos muitos afazeres e passatempos, não pode ser bom em tudo (salienta-se nuns e desleixa noutros). O dinheiro compra as necessidades materiais, porém as imateriais encontram-se inseridas no coração.

Guido Lang
“Singelas Histórias do Cotidiano das Colônias”

Crédito da imagem: http://casamento.vocedeolhoemtudo.com.br/acessorios/aliancas-de-casamento-em-ouro/